CONFERENCIA

Com algumas exceções em parte da Europa e outros países ricos, os problemas são muito iguais e vemos também que as pessoas se dizem as mais bem intencionadas do mundo (basta ver os discursos no encerramento do evento) e que se dependesse delas o trânsito seria muito melhor e praticamente zeraria as estatísticas.

Roberto Scaringella, ex-CET-SP, Contran, Denatran, dizia que um dos problemas do trânsito é que “não entende (de trânsito), não manda e quem manda, não entende”. Durante a conferência de Brasília vimos um razoável desfile de ministros de estados de vários países e do Brasil também, com discursos “comprometidos” com a segurança e as metas da Década. Pela dificuldade com que elaboravam seu raciocínio sobre o tema, notava-se com facilidade a dificuldade do domínio sobre o assunto, o que reduzia em muito a credibilidade de quem alava e a confiabilidade de quem ouvia.

De qualquer forma, não é o caso de dizer que o evento de Brasília não serviu. Pelo contrário, serviu muito. A questão é saber o quanto aprendemos e, principalmente, o quanto estamos dispostos a melhorar por aqui. Não significa tampouco que temos de nos envergonhar perante a metade do mundo pelos resultados brasileiros de cinco anos de década.

Deu para ver, confrontando os números, que o Brasil está na posição intermediária, com um índice de fatalidades da ordem de 22 mortos por 100 mil habitantes enquanto países africanos e asiáticos batem nos 40. O desconforto é quando nos comparamos aos países do pelotão de frente que estão na faixa dos 3 a 6 mortos por 100.000 habitantes. Com o ufanismo de pertencer ao pelotão de frente da economia mundial (hoje, depois da crise, agora somos, parece, a 8ª economia global) não deixa de ser frustrante constatar que temos de pedalar muito para chegar perto deles.

Contudo, voltando para o lado positivo da Conferência Global, ela representou um banho de informações, de experiências, de contatos à comunidade brasileira e, na minha opinião, isto é da maior importância. Falta-nos esta visão do mundo, não abrir a janela para ela mas deixa-la escancarada para a troca de informações e experiências.

Tive oportunidade de encontrar dezenas e dezenas de brasileiros de todos os cantos do país, encantados com a pluralidade de idiomas que se falava às vezes na mesma roda de conversa, com a busca e o sucesso na conquista de dados e informações sobre experiências em outros países. Para esta gente foi importantíssimo ter estado em Brasília, ter apertado a mão de personalidades mundiais do setor (de fazer selfies com eles), e de voltar às suas bases inundados de boas intenções.

Boas apresentações não faltaram. Havia de tudo, para tudo e para todos. Sessões bem técnicas das mais variadas áreas da segurança no trânsito aos enrolados problemas políticos, aliás, tão comuns por aí afora como aqui. Sessões que ajudavam quem queria aprender ou comparar na avaliação de programas de segurança no trânsito, ou como desenvolver e aprimorar sistemas de estatísticas de acidentes.

O painel de discussões sobre o sonho da Suécia do Visão Zero foi um primor pela qualidade das informações e pela simplicidade com que os expositores mostraram como tornar um tema aparentemente tão complexo em algo tão simples de entender, ainda que difícil de aplicar em razão da cultura tão diferente. Neste painel estavam presentes a Ministra de Infraestrutura da Suécia, técnicos suecos que ajudaram a conceber, implementar e manter de pé (cada vez mais vivo) este sonho, o Ministro dos Transportes da Austrália e várias autoridades de outros países cujo papel era comentar a “utopia sueca” do zero fatalidades no trânsito.

É claro que, contrastando com abundância de recursos financeiros como da União Europeia para financiar pesquisas e incentivar programas pontuais mais igualmente importantes, sentia eu a angústia de brasileiros que para poder fazer uma campanha de educação de trânsito na sua cidade ou no seu estado, precisavam rogar ajudas de 500 ou mil reais para imprimir um folheto para entregar nas ruas. Estes cenários, contrapropostos num momento como este, assumem um caráter quase de crueldade, para não dizer de indignação. Se é duro enfrentar esta realidade, pior será se não aprendermos ela. Ela nos ensina muitas coisas que gostaria muito de continuar discutindo neste espaço.

Um ponto importante sempre não se resume a enfrentar as dificuldades mas em aprender quando não conseguimos superá-las e este é um ponto vital de reflexão, depois da Conferência. Podemos aprender com o que outros países tampouco souberam nos ensinar como enfrentaram e continuam perdendo suas batalhas. Em compensação outros tiveram dificuldades tão grandes ou maiores que as nossas e estão numa situação (quase) privilegiada – como a Coreia do Sul, por exemplo. O segredo coreano? Educação!

Gostaria de receber comentários de quem esteve – ou não – em Brasília dias 18 e 19 para continuar esta conversa sobre o futuro do nosso trânsito. Há um mundo de tópicos, experiências, informações à disposição para abrir um debate que, além de rico e atual pode ser muito importante para quem está começando – ou mesmo pensando em começar – um programa de segurança no trânsito.

Vamos continuar este papo?

Jota Pedro Corrêa – Consultor PVST