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19.12.2019 | Notícias

Trânsito é convivência, depende do comportamento coletivo

Policial rodoviário federal desde 1995, Ismael de Oliveira, 46, é graduado em Direito e especialista em Trânsito, Direito Administrativo e Gestão Pública.
Natural de Guaíra (PR), Oliveira já exerceu as funções de superintendente substituto, corregedor regional, chefe da Seção Administrativa e Financeira e chefe do Núcleo de Apoio Técnico da PRF no estado. Também presidiu o Sindicato dos Policiais Rodoviários Federais no Paraná. É ainda instrutor da Academia Nacional da PRF.

“O motorista brasileiro ainda precisa ser sensibilizado quanto ao seu papel no trânsito. As mudanças de comportamento são processuais, levam tempo e não dependem apenas da legislação”.

Ismael de Oliveira
Superintendente da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no Paraná

 

PVST News: Festas de Final de Ano e o verão se aproximando. Podemos considerar que dezembro-fevereiro é um período com tendência a ter um número maior de acidentes?

Ismael de Oliveira: Em períodos de verão e de férias escolares há não apenas um aumento na quantidade de veículos em circulação, mas também um aumento expressivo do número de pessoas viajando dentro de cada carro, de cada ônibus. São famílias inteiras se deslocando para passar as férias na praia, por exemplo. Por conta disso, as festas de fim de ano e a semana de Carnaval são períodos que precisam de uma atenção especial por parte da PRF. Nessa época, há uma intensificação na fiscalização das condutas que mais matam no trânsito, como a embriaguez ao volante, as ultrapassagens proibidas, o uso indevido do celular, a falta do cinto de segurança, entre outras.

 
PVST News: O que dizem as estatísticas se comparados os números de acidentes nos meses de dezembro a fevereiro nas rodovias federais com os demais meses do ano?

Oliveira: Somente no estado do Paraná, por exemplo, entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019, a PRF registrou 1.806 acidentes, 2.158 feridos e 109 mortes. No restante do ano, de março a novembro de 2019, houve 5.882 acidentes, 6.450 pessoas feridas e 369 mortes. Esses dados mostram que a média mensal entre um período e outro não varia muito.
No último período de festas até o Carnaval, registramos nas rodovias federais do estado uma média mensal de 602 acidentes, com 719 pessoas feridas e 36 mortes. No restante do ano, 653 acidentes, com 716 pessoas feridas e 41 mortes. O que podemos dizer com certeza absoluta é que a maioria desses acidentes poderia ter sido facilmente evitada, se parte das pessoas envolvidas tivessem respeitado as normas de trânsito.
Da nossa parte, a PRF tem procurado cada vez mais ampliar a fiscalização e a aplicação da lei nas rodovias federais do Paraná. Registramos em 2018 o menor número de mortes em nove anos. Pela primeira vez desde 2010, o patamar de mortes ficou abaixo de 500. Precisamos reduzir esses índices ainda mais.

 
PVST News: Comportamento e atitudes inseguras são as principais causas dos acidentes?

Oliveira: A maioria dos acidentes graves são causados pelo comportamento do motorista, seja por imprudência, imperícia ou negligência. Todos os dias, são inúmeros os flagrantes de ultrapassagens em locais proibidos, excesso de velocidade e embriaguez ao volante, por exemplo. E muitas pessoas deixam de fazer a manutenção periódica de seus veículos.

 
PVST News: O que o Sr. recomendaria a quem vai pegar a estrada para as festas de fim de ano ou praia?

Oliveira: É fundamental programar a viagem, com paradas para alimentação e descanso, em casos de deslocamentos mais longos. Se houver mais de um motorista habilitado dentro do veículo, revezar a direção a cada três ou quatro horas, pelo menos. Evitar dirigir cansado, com sono ou com pressa. Um pneu em mau estado de conservação, uma lâmpada de freio queimada, são itens que podem provocar acidentes. Uma vez na estrada, a principal recomendação é respeitar a sinalização e as normas gerais de trânsito.

 
PVST News: Como o Sr. analisa o ano de 2019 em relação a 2018, em acidentes com vítimas nas rodovias federais no Paraná e no Brasil?

Oliveira: Entre janeiro e novembro de 2018, a PRF, no Paraná, registrou 7.266 acidentes, com 7.951 pessoas feridas e 458 mortes. Em 2019, foram registrados 7.028 acidentes, com 8.231 pessoas feridas e 443 mortes. Os números estão parelhos, com uma discreta diminuição do número de acidentes e mortes.

 
PVST News: Seis capitais brasileiras atingiram a meta estabelecida pela ONU de reduzir em 50% as mortes no trânsito entre 2011 e 2020: Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador, Rio Branco e Aracaju. O que estas cidades têm em comum? Prioridade na causa?

Oliveira: No final da década de 1990, o atual Código de Trânsito municipalizou a fiscalização de trânsito, especialmente nas capitais e outras grandes cidades. Por isso, a atuação das prefeituras nessa área é algo fundamental. A PRF tem diversas ações conjuntas com as administrações municipais com o objetivo de preservar vidas. Como exemplo, teremos agora a 9ª edição da Operação Rodovida, que é justamente um esforço em comum que envolve órgãos federais, estaduais e municipais, desde meados de dezembro até o Carnaval. Outros exemplos são os esforços para garantir o serviço de iluminação pública nos perímetros urbanos de rodovias.

 
PVST News: Qual tem sido o maior desafio da PRF na segurança viária?

Oliveira: Educação! O motorista brasileiro ainda precisa ser sensibilizado quanto ao seu papel no trânsito. As mudanças de comportamento são processuais, levam tempo e não dependem apenas da legislação.

 

PVST News: Recentemente foi lançado o aplicativo Eu Rodo Seguro graças à parceria entre a Volvo e a PRF. Qual a importância de alertar os usuários sobre trechos de maior índice de acidentalidade?

Oliveira: Toda ferramenta tecnológica que traga mais tranquilidade na condução dos veículos é bem-vinda, tanto é que a PRF é uma grande parceira da Volvo, neste quesito. O motorista que programa a sua viagem, que se abastece previamente de informações sobre as condições das rodovias, tem melhores chances de garantir uma viagem segura.

 

PVST News: Na sua opinião o que falta para o Brasil deixar de ocupar o triste ranking dos países com trânsito mais violentos do mundo?

Oliveira: Mais uma vez, insisto no tema da educação para o trânsito. Seria importante uma inclusão mais efetiva desse tema no currículo escolar, já nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Se uma criança é educada desde cedo, a chance de se tornar um adulto responsável é muito maior. E o trânsito, consequentemente, pode se tornar um ambiente mais seguro.

 

PVST News: Punição ou educação? Qual o caminho?

Oliveira: Não são políticas excludentes. A educação é um pilar básico, claro. Mas, por outro lado, a fiscalização também tem o seu efeito educativo prático. É evidente que muitas pessoas passam a respeitar as normas de trânsito a partir do momento em que a percepção delas sobre o nível de fiscalização existente aumenta.

 

PVST News: O que é ter uma vida dedicada à segurança viária e continuar assistindo o drama de ver tantas vidas ceifadas no asfalto das rodovias?

Oliveira: Uma parte extremamente significativa dos acidentes, ferimentos e mortes no trânsito são ocorrências perfeitamente evitáveis. As equipes da Polícia Rodoviária Federal que atendem os acidentes percebem isso, todos os dias. Quando assistimos a eventuais flagrantes registrados por câmeras de videomonitoramento, essa certeza só aumenta.
Cada morte é uma perda irreparável para as famílias envolvidas. Ninguém inicia uma viagem cogitando não chegar ao destino ou nunca mais voltar para casa. Por trás de cada estatística de violência no trânsito, há sempre muita dor envolvida. Nossos policiais sabem disso e sentem a dor das famílias.

Nosso trabalho é justamente o de tentar reduzir esses danos. Para tanto, além do reforço das ações de fiscalização e da melhoria das condições estruturais das rodovias, é imprescindível a colaboração do conjunto da sociedade.

Ismael PRF 2 Ismael PRF

 

 

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