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24.05.2019 | Notícias

“Erros são inevitáveis, mas as mortes não precisam ser”

O Programa Volvo de Segurança no Trânsito convidou Marta Obelheiro, especialista em segurança viária do WRI Brasil, para falar sobre os desafios de diminuir os acidentes de trânsito nas cidades.  Nesta entrevista, ela argumenta sobre a importância de compartilhar responsabilidades para se atingir o ideal de futuro de zero mortes e feridos em acidentes.

Quais os principais desafios de se implementar um programa de Visão Zero Acidentes? 

Um dos principais desafios é o fato que precisamos passar por uma mudança de paradigma. No Brasil, ainda se responsabiliza muito as pessoas que usam as vias pelos resultados em segurança viária. Se fala muito que o comportamento de pedestres, ciclistas e motoristas gera acidentes. Pouco se fala da responsabilidade do gestor público de oferecer um sistema de mobilidade urbana seguro.

Uma das chaves para uma verdadeira mudança na segurança viária é transferir uma parte da responsabilidade das pessoas que utilizam as vias para os gestores do sistema viário. Esse é um dos princípios da abordagem de Sistemas Seguros com o qual o WRI trabalha, que em alguns lugares tem o nome de Visão Zero. Cidades que adotaram essa abordagem são as que mais conseguiram avançar no aumento da segurança e na redução do número de mortes no trânsito.

O outro princípio é que nenhuma morte no trânsito é aceitável. Não é aceitável que as pessoas percam a vida ao sair de casa para ir ao trabalho, que crianças percam a vida a caminho da escola. É preciso compreender que todo ser humano vai errar em algum momento, e vai errar também no trânsito. Esses erros são inevitáveis, mas as mortes não precisam ser.  Ou seja, a responsabilidade compartilhada é a chave para uma mudança real na segurança viária.

E quais os caminhos para esse compartilhamento da responsabilidade?

Os gestores de trânsito precisam olhar para a sua responsabilidade sobre o problema.

Nós defendemos que a implementação da abordagem de Sistemas Seguros é um caminho. O WRI fez uma pesquisa e percebeu que os países que adotaram a abordagem de Sistemas Seguros (ou Visão Zero) tiveram uma redução mais acentuada no número de mortes por acidentes e em um intervalo de tempo menor que os países que não adotaram.

Nova Iorque é um exemplo. A medida adotada para reduzir os acidentes em uma das avenidas com um grande número de atropelamentos era uma placa alertando os pedestres que aquele local era arriscado. É claro que o número de atropelamentos e mortes não diminuiu. Então, de uns anos para cá, a cidade adotou o Visão Zero  e a gestão pública fez uma série de mudanças no local:  adequou o sistema semafórico, aumentou os canteiros centrais e instalou novas faixas de pedestres. Essas medidas levaram a uma redução drástica do número de atropelamentos. Não resolve o problema falar para o pedestre que o local é arriscado, cabe ao gestor público reconhecer que aquele local é crítico e avaliar quais medidas podem ser adotadas para que se torne seguro.  Esse é um exemplo de Sistemas Seguros. São medidas fáceis de implementar e de baixo custo.

No Brasil, há exemplos de cidades que estão seguindo por esse caminho.

No Brasil, algumas cidades estão se destacando, como Fortaleza e Salvador. Ambas as cidades estão muito próximas de atingir a meta da Década de Ação pela Segurança no Trânsito (2011 – 2020), da ONU, de reduzir em 50% as mortes no trânsito até 2020. Fortaleza melhorou o seu sistema de mobilidade e reduziu muito as mortes no trânsito nos últimos anos com soluções de baixo custo.

Mas a gente ainda tem um longo caminho pela frente. A gestão de velocidades, por exemplo, continua sendo um desafio. É preciso adotar limites de velocidade seguros e compatíveis com a fragilidade do corpo humano, especialmente em áreas urbanas, onde há grande concentração de pessoas. Essa medida, embora politicamente desafiadora, é fundamental para salvar vidas no trânsito.

Você percebe que, hoje em dia, há uma maior preocupação dos gestores públicos, com a segurança no trânsito?

Sim, é perceptível que há uma maior preocupação dos gestores públicos com a redução de mortes no trânsito. É uma mudança que está em curso. Os gestores estão percebendo que os acidentes são um grave problema de saúde pública, com consequências para a sociedade em perdas de vidas e de recursos econômicos. Em grande parte das cidades, uma parcela significativa do orçamento da saúde é gasta com atendimento e tratamento de vítimas de trânsito. Isso tem um impacto nas finanças do município. Temos visto uma mudança na atuação dos gestores.

Os sistemas de BRT podem contribuir com a adoção de Sistemas Seguros e consequente aumento da segurança?

Podem contribuir à medida que a implementação de um sistema de BRT impulsiona uma readequação da via e o reordenamento viário. Junto com o BRT normalmente vem a melhoria de sinalização, da infraestrutura para pedestres e a readequação dos tempos dos semáforos. É um conjunto de ações que faz com que haja uma redução de acidentes. Além disso, em alguns lugares, os condutores dos ônibus de BRT têm um treinamento diferenciado, para uma direção mais defensiva no trânsito.

Mudanças na gestão das cidades pode atrasar o avanço da segurança viária? 

Quando há uma mudança de gestão, é muito importante o papel da sociedade, de pressionar para que haja uma continuidade, e não aceitar que determinadas medidas deixem de ser adotadas.

Já as mudanças de infraestrutura viária permanecem. E a abordagem de Sistemas Seguros ajuda as cidades a se prevenir contra as oscilações de mudança de governo, pois promovem a continuidade.

Na sua opinião, como a indústria e os operadores de transporte urbano podem contribuir para a segurança viária? Para esse despertar do que precisa ser feito e compartilhamento de responsabilidades?

Os operadores de transporte urbano são responsáveis por oferecer uma mobilidade segura e, ao mesmo tempo, sofrem as consequências dos acidentes de trânsito. Os acidentes, além das vidas perdidas, também geram prejuízos operacionais.  Há uma interrupção do serviço, da via e um custo material alto para o operador. A segurança é uma forma não só de proteger a vida, mas de diminuir custos operacionais decorrentes dos acidentes de trânsito.

Algumas empresas de transporte de ônibus têm, entre os programas de acompanhamento dos motoristas, metas de segurança. Os motoristas que não se envolvem em acidentes são premiados. E o prêmio não é, necessariamente, financeiro. Muitas vezes os prêmios são ter preferência na escolha das rotas e das escalas de trabalho.

E a indústria?

No caso da indústria há uma série de fatores, que vão do desenvolvimento de tecnologias ao desenho do veículo, que podem contribuir para a redução de acidentes.  No exemplo da Suécia, ocorreram muitos avanços nesse sentido. A indústria começou a investigar uma série de acidentes fatais para implementar melhorias nos veículos e proteger não só o ocupante do veículo, mas também a pessoa que está ao lado de fora. No caso dos ônibus, isso se reflete principalmente numa melhor visibilidade para o condutor. Ele precisa ter uma boa visibilidade para assumir uma conduta mais defensiva no trânsito.  Então, a indústria tem um papel fundamental no desenvolvimento de tecnologia e na investigação dos acidentes para aumentar a segurança do veículo, tanto para o condutor quanto para as pessoas que estão ao lado de fora, principalmente os mais vulneráveis, que são pedestres.

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Quem é Marta Obelheiro

Marta Obelheiro é especialista em Segurança Viária do WRI Brasil, com foco em projetos nas áreas de transporte, desenvolvimento urbano e segurança viária. Está envolvida em esforços relacionados ao planejamento, desenvolvimento e implementação de projetos de transporte sustentável nas cidades brasileiras, incluindo conceitos e melhores práticas de segurança viária em projetos de infraestrutura e operação de ônibus. Participou de diversas auditorias de segurança viária em corredores de ônibus e BRT em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba. Atualmente, apoia cidades no desenho e implementação de infraestrutura segura e na adoção de Sistemas Seguros e Visão Zero como políticas públicas para salvar vidas. É autora dos manuais “Sustentável e Seguro: Visão e Diretrizes para Zerar as Mortes no Trânsito”, “O Desenho de Cidades Seguras” e “Impactos da Redução dos Limites de Velocidade em Áreas Urbanas”.

 

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