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28.11.2019 | Notícias

Compartilhar é a solução

“As cidades inteligentes, do futuro, são aquelas que estão devolvendo as ruas aos  cidadãos e que estão à frente na mudança de matriz de locomoção, do individual para o coletivo”.

Renato de Castro, expert em em Smart Cities

Programa Volvo de Segurança: Renato, você é reconhecido como Embaixador das Smart Cities pelo seu olhar profundo nas tendências dos centros urbanos. Como você avalia este processo de repensar as cidades?

Renato de Castro: Esse conceito de cidade inteligente não é novo. Ele nasceu no início dos anos 80, principalmente nos Estados Unidos, com o uso de tecnologia na busca sistemática para solucionar, ou pelo menos minimizar, os principais problemas urbanos. Ao longo desses quase 40 anos, houve uma grande aceleração no processo de urbanização global. Segundo a ONU, saltamos de uma taxa de 39,28% da população mundial vivendo em cidades, em 1980, para 54% em 2017. No Brasil, os números relacionados ao mesmo período são ainda mais impressionantes: de acordo com o IBGE, o país tinha 66% de sua população nos centros urbanos. Em 2020, esse índice chegará a surpreendentes 90%.

PVST: Qual é o impacto para a sociedade?

RC: O crescimento da população e o êxodo das áreas rurais trazem várias consequências para a sociedade, os chamados problemas urbanos. Da falta de escolas ao engarrafamento. A Unicef indica que, atualmente, 61 milhões de crianças não tem acesso ao sistema escolar  e estima-se que nos Estados Unidos, US$121 bilhões sejam desperdiçados anualmente com engarrafamentos. Então, podemos imaginar que, as soluções não consistem somente em construir mais escolas e mais estradas.

PVST: São os impactos na sociedade que impulsionam o conceito de Cidades Inteligentes?

RC: Sim, a complexidade e a dimensão desses problemas têm impulsionado a evolução do conceito de cidades inteligentes. E se na década de 80 todos os projetos eram de base 100% tecnológica, atualmente o foco no cidadão e no aumento da qualidade de vida nas cidades são – ou deveriam ser – os pilares deste processo.

PVST:  Qual o papel da mobilidade no conceito das cidades inteligentes? E como a segurança viária está ligada a este conceito?

RC:   Hoje 50% da nossa infraestrutura serve aos veículos motorizados. Ruas, estradas, pontes, túneis, etc. O desafio é devolver as ruas aos cidadãos. As cidades do futuro são as que estão à frente na mudança de matriz de locomoção, do individual para o coletivo. Que investem nas tendências irreversíveis que são os veículos autônomos e elétricos. Que vê o transporte compartilhado como a solução para os grandes problemas de mobilidade urbana.

PVST: O Brasil está no ranking dos países como trânsito mais violentos do mundo.  Como um expert em tecnologias “Smart” que contribuem para o bem-estar coletivo nas cidades, quais as soluções para reduzir o número de acidentes e mortes nas ruas das cidades e estradas?

RC:  Eu não vejo  nenhum movimento conjunto com a sociedade  para que a segurança de trânsito no Brasil, que é um tema de saúde pública, tenha prioridade. Não acredito na punição. Eu acredito num trabalho forte de conscientização. E não apenas em segurança, mas de civilidade, de respeito e cidadania. E neste sentido, temos um ambiente muito mais favorável com a nova geração. Uma geração mais consciente, mais conectada, que compartilha mobilidade, que  não compra propaganda, mas sim conteúdo. Uma geração que vai viver uma outra realidade de mobilidade com veículos autônomos. Nos próximos 50 anos será mais difícil ter uma habilitação do que um brevê de piloto.

PVST: Você tem algum exemplo de Cidades Inteligentes com soluções e resultados positivos em segurança viária?

RC:  Estocolmo, a capital sueca acaba de ganhar o título de cidade mais inteligente do ano, durante o Smart City World Expo 2019, em Barcelona há poucos dias. Londres restringiu o acesso a veículos diesel. Em Barcelona só é permitido o acesso à cidade, automóveis elétricos, híbridos ou gasolina de alta performance. O prêmio para Estocolmo reitera a minha teoria de que, não somos nós que estamos fazendo cidades mais inteligentes, mas sim a sociedade que está evoluindo para  um novo modelo de convivência social e os países nórdicos são os melhores exemplos, inclusive de cultura de segurança viária.

PVST: Como o Brasil está posicionado nesse processo global de tornar as cidades mais inteligentes?

RC: O Brasil não tem nenhuma cidade entre as top 10 cidades mais inteligentes do mundo. Até porque nós temos um dificultador, que são os problemas de segurança. A falta de segurança influencia a mobilidade. Mas existem algumas cidades brasileiras com vontade política para fazer algo diferente. Fortaleza, por exemplo,  isolou um bairro que tem vida própria, do trânsito e criou espaços compartilhados de lazer. Curitiba que também concorreu ao título de Cidade Inteligente 2019, é um belo exemplo com o BRT que se transformou referência mundial. Acho que estamos no caminho. Apesar de estar fora do país desde 2005, tenho investido bastante tempo no Brasil nos últimos anos porque vejo o ecossistema se movimentando.

PVST: O que falta para que as cidades brasileiras avancem mais rápido neste processo de pensar, planejar e implementar estratégias alinhadas ao conceito de cidades mais inteligentes?

RC: Qualquer projeto de transformação só será bem-sucedido se tiver a mentalidade voltada PPPP -   Parceria  Público Privada para as Pessoas.  Defendo a presença de, pelo menos, cinco atores juntos neste processo: o poder público, a iniciativa privada, as universidades, o terceiro setor e o cidadão. Particularmente não vejo esse envolvimento aqui no  Brasil. E, definitivamente, as cidades com foco no amanhã são as que tem apoio das autoridades governamentais. As que tem proatividade e criam ambiente favorável à inovação.

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