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19.11.2015 | Artigos

Conferência Mundial sobre Trânsito – Desalento em Brasília

Ontem, quarta-feira (18), foi aberta no Centro Internacional de Convenções em Brasília a Segunda Conferência Global de Alto Nível sobre segurança no trânsito com a presença de mais de 100 delegações estrangeiras. Cerca de 1500 congressistas participam do evento que termina hoje a tarde com a divulgação da Carta de Brasília.

Dezenas de ministros de estados, grandes nomes da segurança no trânsito do mundo tiveram intensa participação nas dezenas de sessões que concorriam entre si durante todo o dia.

Para a comunidade brasileira ligada ao trânsito era como um final de copa do mundo pois, afinal, nunca se havia visto um evento destas dimensões no País, principalmente com o número de estrelas presentes como aconteceu.

Se de um lado havia um certo ar de excitação por participar de um evento tão grande, de outro certamente reinava uma expectativa não menor para ver que tipo de discurso teriam as autoridades brasileiras em relação ao tema já que, apesar de signatário da Década Mundial, o Brasil muito pouco fez, notadamente pelo lado do Governo.

No fim, aconteceu o que muitos previam: Tanto pelo discurso da Presidente Dilma Roussef, na abertura como pelas intervenções dos Ministros Marcelo Castro, (saúde), Gilberto Kassab (Cidades) e José Eduardo do Cardozo (Justiça), “o Brasil está cumprindo a sua parte”, apesar de todos reconhecerem que o número de mortos é insuportável e precisa baixar.

Foram apresentadas ações de alguns ministérios como sendo efetivas sem que indicadores de resultados fossem apresentados. Como se previa, a Lei Seca foi destacada como um exemplo para países.

No painel de alto nível em que ministros abordariam passos para acelerar o progresso e atingir as metas da Década de Ações, Gilberto Kassab limitou-se a coordenar as intervenções dos colegas dos demais países e, assim, esquivou-se de anunciar os planos do Governo Brasileiro para os próximos cinco anos. Como a Presidente Dilma não fez menção ao que fará o Brasil até 2020, fica entendido que continuaremos vendo o que já estávamos observando: uma ausência enorme do Governo de ações concretas para baixar as fatalidades e feridos graves no trânsito.

Esta sensação de desalento, eu tive oportunidade de perceber com bastante gente com que tive a oportunidade de conversar. Brasileiros mostravam desapontamento enquanto estrangeiros se mostravam incrédulos diante dos números de perdas no nosso trânsito.

Bancos multilaterais como Banco Mundial, BID participam do evento com grandes equipes que vieram de Washington para desenvolver negociações com interessados em mostrar projetos nas áreas transporte e trânsito. A impressão que passavam era, de maneira geral, que o Brasil tem dificuldades na formulação de propostas de projetos e, assim, acaba deixando de conseguir bons financiamentos para estradas ou recuperação das que estão em mau estado de conservação.

Hoje, o último dia da Conferência, deve ser divulgada a Carta de Brasília mas não se deve esperar  grandes novidades, pelo menos pelo lado do Brasil. Não teremos ministros brasileiros ligados a área participante de qualquer sessão, de onde concluo que nada mais haverá de ser dito de importante pelo nosso lado.

Sobre a conferência como um todo os organizadores do evento – OMS e ONU – podem se dar por satisfeitos por poder constatar o interesse de 120 países, embora a maior parte deles esteja em débito em relação dos objetivos de baixar 50% das mortes no trânsito. Pelo lado brasileiro veremos se haverá alguma cobrança mais séria e contundente por parte da sociedade, principalmente dos meios de comunicaçao. Afinal, como todos sabemos, quando há pressão, o Governo reage.

J. Pedro Correa

08.10.2014 | Artigos

Renovação de frota: o caso mexicano

Um bem sucedido programa de renovação de frota já sucateou mais de 35 mil veículos comerciais, no México, com benefícios ao meio ambiente e à segurança.

Sérgio Gomes*

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O programa de renovação de frota de caminhões do México, que se desenvolve continuamente há dez anos, é bem diferente de ações semelhantes nos Estados unidos e Europa ? onde existem mecanismos de financiamento eficientes, além de incentivos. O Programa de Chatarrización (sucateamento) adotado pelo governo mexicano tem como propósito retirar de circulação e garantir a reciclagem de veículos pesados rodoviários e urbanos. Os principais objetivos são a redução da poluição e dos acidentes provocados por caminhões antigos mal conservados.

Para ter acesso aos benefícios do programa, o veículo deve ter mais de 10 anos e deve ser deixado em um dos centros de sucateamento credenciados pelo governo. Nestes locais,  recebe um certificado de destruição que permite adquirir um veículo novo ou semi novo com até 6 anos de uso. O incentivo pago pelo caminhão antigo garante o pagamento da entrada para compra de veículo a ser financiado. Os valores pagos para o sucateamento variam de 48 a 161 mil pesos mexicanos, atingindo até 15% do valor do novo veículo a ser financiado.

Em dez anos o programa mexicano contabiliza mais de 35 mil veículos antigos destruídos. A frota mexicana é composta por aproximadamente 377 mil caminhões, sendo 36% deles com mais de 20 anos, a maior parte pertencente a pequenos transportadores. Entenda-se que mais de 80% das companhias de transporte são de autônomos, na prática (de 1 a 5 caminhões), responsáveis por 27% da frota. Sendo informais, não têm acesso a programas de financiamento. Do lado oposto está 1% das companhias de transporte grandes que detêm 26% da frota, a mesmo quantidade dos autônomos.

Dessa forma, calcula-se que esse resultado permitiu poupar 9,630 milhões de pesos mexicanos (o equivalente a R$ 1,7 bilhão) em benefícios ambientais, através da redução de poluentes, além de valor ainda não contabilizado em redução de acidentes de trânsito.

Apesar de aplicar incentivos governamentais, ao contrário de EUA e Europa, este programa apresenta alguns aspectos especialmente interessantes, tais como:

- Leva em conta tipos de transportadores, por tamanho;

- Permite sofrer ajustes, como foi feito, para garantir sua continuidade;

- Tem resultados monitorados;

- É mensurado também em benefícios ambientais.

O programa mexicano de renovação de frota usa de incentivos fiscais mas é merecedor deatenção, pelo fato de já ter demonstrado sua eficiência. Possui longevidade, passou por ajustes e apresenta resultados positivos.

A solução para o caso brasileiro talvez deva considerar o melhor dos ?três mundos? aqui apresentados. Pelas características peculiares do Brasil, acreditamos que a melhor solução deverá ser uma solução local que possa aproveitar a experiência desses mercados.

 

*Sérgio Gomes, ex-diretor de estratégia do Grupo Volvo na América Latina, é especialista em Estratégia e Negócios e sócio diretor da Sérgio Gomes Consulting.

03.09.2014 | Artigos

Viajar com sono, não pode! Segurança nas estradas deve ser uma prioridade

Ana Maria Nogueira Rezende*

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  Ter consciência do perigo, todos os motoristas têm.  O sono é um dos vilões das estradas.  Na análise do Atlas da Acidentalidade no Transporte Brasileiro ? 2008/2012, os acidentes causados pelo sono são a quarta maior causa-mortis nas estradas federais do país, de acordo com a gravidade (pág.44). Quando se está com sono ou com os sentidos alterados, a percepção da realidade fica afetada, não se consegue frear devidamente e acelera mais. Pode estar com olhos abertos, mas age mecanicamente.

As estratégias para não dormir são diversas. Vão das anfetaminas, conhecidas como ?rebites? ao simples cafezinho.

Na década de 1960, usava-se o estimulante Pervitin. Tirava o sono, mas causava secura na boca. Os inibidores de apetite, ou ?rebites?, vendidos sem receita médica, tomados com café e coca-cola, transforma o motorista em semi-zumbis, causando até impotência sexual.  Infelizmente, maconha e cocaína também fazem parte do cotidiano estradeiro para inibir o sono. Outras técnicas menos usuais, mas que já ouvi, é o uso de um pano molhado e gelado entre as pernas, o incomodo afasta o sono. Há quem cite até música alta.

Mas a verdade é uma só: o melhor remédio contra o sono ? pra não dizer o único realmente recomendável ? continua sendo dormir, descansar. Assim você não coloca em risco sua vida e de outras pessoas. Entender o sono e a fisiologia do seu corpo é importante. Cada pessoa é de um jeito e reage de forma própria aos estímulos.

Tive a oportunidade de participar de uma palestra do dr. Sérgio Barros, especialista em distúrbios do sono. Ele desenvolve trabalho sobre o sono ao volante, junto aos motoristas de uma empresa de transporte de passageiros do Espírito do Santo, a Águia Branca, localizada na grande Vitória. Seu método foi citado no livro Cultura de Segurança no Trânsito – Casos brasileiros, J. Pedro Corrêa (págs.148-155), para que não ocorram acidentes causados pelo sono. A empresa criou o Programa Medicina do Sono. Investiu em assistência aos motoristas, alimentação correta para o período noturno, cromoterapia nos quartos de descanso, salas de exercícios físicos, estímulos para afastar o sono daqueles que precisam seguir viagem noturna, troca das lâmpadas dos faróis dos ônibus, adequação das poltronas dos condutores, entre outros benefícios para o bem estar dos motoristas.

Atualmente o setor de transportes passa por mudanças, a Lei 12.619/2012 prevê descanso para os motoristas profissionais.

Mesmo não sendo a ideal, é necessário segui-la para que ocorram ajustes no setor de transportes. Sempre é bom avisar a quem vai pegar estrada:

- Durante a viagem, deu sono, pare!  Respeitar os limites do organismo é fundamental;

-Evitar comer alimentos pesados, antes de pegar estrada. Junto com o cansaço vem a fadiga, que diminui a percepção, aumentando o risco de acidentes;

- Evite viajar após o almoço; é o horário mais propenso à sonolência;

- Depois de horas de trabalho, definitivamente você não está apto a dirigir. Alongamentos e exercícios ajudam no processo de estímulo às endorfina e serotonina;

- Cafezinho não ajuda. Apenas retarda a chegada do sono, deixando o motorista estimulado, com a percepção afetada.

 

(*) Ana Maria Nogueira Rezende é historiadora, gestora cultural e autora do livro ?Transportador Mineiro ? História Pioneira?(2012). Pesquisadora e estudiosa da história do transporte em Minas Gerais, participou também da publicação do livro ?Centro- Oeste Mineiro ? História e Cultura?, em 2008.

14.08.2014 | Artigos

Zero Acidentes: meta permanente para ônibus

Empresas de ônibus já trabalham com a meta de zero acidentes, pois transportam a carga mais preciosa que existe: pessoas.

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Luís Carlos Pimenta, presidente da Volvo Bus Latin America

A introdução da campanha Zero Acidentes, pela Volvo, no Brasil, é parte de uma estratégia global do Grupo Volvo e acontece num momento importante, para o país. O crescimento da frota de veículos tem agravado a situação, e o nosso país não tem conseguido reduzir o número de acidentes e vítimas do trânsito, apesar dos esforços de alguns segmentos da sociedade em se engajar na Década Mundial de Ações para a Segurança no Trânsito, definida pela ONU via Organização Mundial da Saúde.

Mas devo destacar que há muito as empresas brasileiras de transporte de passageiros trabalham com essa meta, de zero acidentes. Posso dizer, sem medo de errar, algumas empresas de ônibus tratam a segurança com o mesmo rigor com é tratada pelas companhias aéreas. Os cuidados com manutenção, o treinamento das equipes e os procedimentos de segurança, vem se tornando cada vez mais rigorosos e eficazes nas empresas de ônibus.

Isto porque para o transportador de ônibus, além da tripulação, a vida dos passageiros é o bem mais precioso a ser preservado. Aqui, mais do que nunca, aplica-se a frase dos fundadores da Volvo, Assar Gabrielsson e Gustaf Larsson: ?Veículos são feitos por pessoas e para transportar pessoas. Por isso o princípio básico para todo o trabalho, do desenvolvimento à produção, deve ser sempre a segurança?.

Ao lado de qualidade e cuidado com o meio ambiente, a segurança é um dos valores essenciais da Volvo e, em todo o mundo, nossos clientes reconhecem os produtos Volvo como os mais seguros.

Além da segurança dos veículos, seja passiva ou ativa, em tudo que fazemos colocamos a segurança como princípio, como cuidado essencial. E a Volvo Bus destaca-se também por oferecer soluções completas, e não apenas veículos. Procuramos participar da elaboração de projetos de mobilidade em cidades de todo o Brasil e demais países da América Latina. Também ajudamos os transportadores rodoviários a configurar desenvolver as melhores soluções para suas operações. Então, o DNA de segurança da Volvo está sempre presente, em cada nova solução, em cada configuração de veículo ou linha, rota, ou sistema de transporte onde estamos presentes.

É verdade que esta não é uma meta fácil. Mas estou certo de que temos, nos transportadores de passageiros, grandes aliados à causa de Zero Acidentes. Entretanto, eles também precisam da colaboração de outros setores da sociedade para levar a efeito a proposta de atingir zero acidentes.

12.08.2014 | Artigos

Minas Gerais: acidentes nas estradas, uma tragédia previsível

“Hoje, com o acesso facilitado ao automóvel, realizou-se o sonho, mas veio junto o pesadelo.  Motoristas mal treinados pegam as rodovias e se acham imortais dentro dos carros.”

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Ana Maria Nogueira Rezende(*)

As chuvas do último final de semana de julho deixaram uma conclusão para se pensar e pasmar. Em Minas, o saldo de mortes nas estradas foi maior que no feriado prolongado da Semana Santa.  Foram 368 acidentes, 21 mortes, 249 vítimas, sendo 17 colisões frontais.  Na Semana Santa ocorreram 15 mortes.  Seria só a chuva a causa de tamanha tragédia? Não só a chuva contribuiu. Aliam-se a ela fatores como imprudência, ingestão de álcool, velocidade incompatível, ultrapassagens indevidas e vias mal cuidadas.

Outro dia escutei a seguinte frase: ?Uma tragédia não se mede pelo número de mortes.? Não se referia ao transporte rodoviário, mas poderíamos trazê-la para a malha mineira. Possuindo 36.103 km, ficou em 13º no aporte de investimentos da União.

Nas últimas décadas, os automóveis, caminhões, carretas melhoraram muito e com isso ganharam agilidade. Já as estradas não acompanharam o compasso. Minas Gerais ficou muito aquém dos outros estados.  Por aqui, as estradas foram construídas em cima das antigas trilhas dos tropeiros e dos carros de bois. Ou seja, cheias de curvas angulosas.  A própria Rodovia Fernão Dias, ligação com São Paulo, antes da duplicação era assim. Com a obra, reduziu-se a sinuosidade e os tombamentos diminuíram. No entanto, ainda continuam os acidentes.

E hoje, com o acesso facilitado ao automóvel, realizou-se o sonho, mas veio junto o pesadelo.  Motoristas mal treinados pegam as rodovias e se acham imortais dentro dos carros. E sabemos que não é assim. Carro não significa proteção. Abusam-se das ultrapassagens em locais proibidos e desprezam a sinalização existente. Em uma empresa mineira, especializada em transporte de cargas especiais e também de pás eólicas, com emprego de batedores, ouvi uma explicação: ?É inevitável a prática da imprudência dos motoristas?. Eles ultrapassam de qualquer maneira e aí ocorre, o acidente. Quase sempre fatal. Em um deles, foram cinco mortes da mesma família, em batida frontal.

Sou de família de estradeiros, então aprendi a usar a malícia, uma das úteis ferramentas da prudência. Posteriormente, na elaboração do livro Transportador Mineiro – História Pioneira foram ressaltadas ditas mudanças, ocorridas no transporte de carga de Minas Gerais.

(*)  Ana Maria Nogueira Rezende é historiadora, gestora cultural e autora do livro ”Transportador Mineiro – História Pioneira”(2012). Pesquisadora e estudiosa da história do transporte em Minas Gerais, participou também da publicação do livro “Centro- Oeste Mineiro – História e Cultura”, em 2008.

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O Livro “Transportador Mineiro – História Pioneira“, de Ana Maria Nogueira Rezende e com acompanhamento do jornalista Luciano Pereira, registra os desafios enfrentados pelos desbravadores do transporte na região em diferentes épocas, citando as empresas pioneiras do ramo e mostrando fotos históricas da atividade com os brutos que transportavam até oito toneladas, uma proeza, para a época, comparável às composições atuais que podem transportar dez vezes mais. Saiba mais em http://transportadormineiro.wordpress.com.