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29.10.2019 | Notícias

As facilidades tornaram os patinetes irresistíveis mas exigem soluções rápidas, regras e legislação

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PVST: Em um mundo onde as premissas da mobilidade e da sustentabilidade são amplamente debatidas, os patinetes  elétricos são uma alternativa para o morador das grandes cidades?

Celso Mariano: Sem dúvida. São sim. Especialmente para os pequenos trechos entre o local onde a pessoa está (sua casa, trabalho, escola, etc.) e o ponto do transporte público (ônibus, metrô, ponto de taxi), ou mesmo do estacionamento onde deixou o seu veículo. Esta chamada micro mobilidade encontra no patinete um grande aliado. As bicicletas compartilhadas já têm feito isso, em certa medida.

PVST: Assim como aconteceu com as bicicletas compartilhadas, os patinetes elétricos estão ganhando, cada vez mais, espaço e popularidade nas grandes cidades.  Na sua opinião, quais os pontos a favor e contra desta modalidade de transporte?

Celso Mariano: O patinete, nem a bicicleta, ou os veículos do Uber, são, como veículos, novidade. Nem mesmo colocar motores em patinetes ou bicicletas é coisa nova. O que há de moderno nisso tudo é a combinação destes veículos com um modelo de negócios inovador, além de uma pitada de tecnologia. A facilidade de controlar tudo em um aplicativo instalado num smartphone que já está nas mãos da maioria das pessoas, permitindo pagar por um débito automático, em um cartão de crédito, ou numa conta que recebe créditos prévios, é muito atrativa. E finalmente, nada combina mais com o ritmo agitado e descolado dos dias atuais do que poder pegar e largar o veículo praticamente em qualquer lugar, o chamado dock-free. Por isso tudo, tornaram-se irresistíveis. No caso dos patinetes e das bicicletas, há ainda a enorme vantagem, para muitas pessoas, de não precisar ter uma CNH ou fazer qualquer curso para se beneficiar do produto/serviço. São benefícios reais. Os pontos contrários ficam por conta de uma combinação preocupante de fatores: falta de regras, dificuldade de fiscalizar, falta de infraestrutura e, finalmente, a falta de hábito e cultura dos usuários do serviço e dos outros usuários das vias. Quanto a definição do que pode e do que não pode, certamente qualquer regramento é melhor do que nenhum.

PVST: A morte recente do engenheiro mineiro, que perdeu a vida ao cair do equipamento, reascendeu a discussão sobre o tema. Na sua opinião é mesmo um equipamento polêmico?

Celso Mariano: O tema é polêmico especialmente por tratar-se de uma destas novidades que chegam à galope, embaladas num pacote tecnológico que reinventa um brinquedo, catapultando-o ao nível de veículo, tirando-o dos pátios das casas e dos parques para colocá-lo nas ruas, onde mal conseguimos regrar e controlar os modais tradicionais. Assusta mesmo. E demanda soluções rápidas dos legisladores, dos operadores do trânsito, dos usuários de outros modais e dos próprios usuários. Ou seja, impacta tudo e a todos. Os primeiros acidentes, então, naturalmente chamam a atenção. Mas não é nada que já não esteja acontecendo, há décadas, com outros tipos de veículos. Cuidemos para não cair em distrações, nem usar a novidade para desviar a atenção do problema maior: nosso trânsito é violento. Não somos bons condutores e pedestres. Nem como passageiros somos devidamente civilizados. Por que seríamos em cima de patinetes? Uma parte da polêmica vem de um nervosismo de quem não sabe o que fazer, não sabe como lidar com a novidade. É preciso criar regras claras e aplicáveis, criar infraestrutura adequada e educar todos, não apenas os condutores do patinete. A realidade está nos atropelando. Precisamos reagir com rapidez e precisão. Estamos mais do que atrasados. Mas, justiça seja feita: o mercado não espera, não pergunta, não concede exceções. Apenas faz. Nenhum órgão de trânsito estava realmente preparado, para isso. Nem para alugar carros com motoristas, nem para aluguel de bicicletas ou patinetes por aplicativos.

PVST: Existe ainda muita controvérsia sobre a regulamentação, o que mostra a complexidade sobre o tema. Na sua opinião, qual o caminho?

Celso Mariano: Aqui no Brasil cada cidade está tentando se espelhar nas pioneiras, para não repetir erros. E todos olham o que as grandes cidades mundo afora estão fazendo. Recentemente, ouvi da Diretora da Grow, dona da Green e da Yellow, em um evento em Porto Alegre, que a Portaria em elaboração na capital gaúcha é uma das melhores do mundo. Pode ser. Mas então, concluo, estamos muito longe de ter uma boa solução. O modelo gaúcho realmente tem uma abordagem ampla e bem pensada, mas há muitas lacunas para chegarmos à incorporação do novo modal sem traumas. Não vamos escapar de experimentar e ajustar, observar, analisar, ajustar de novo e refazer este ciclo diversas vezes. O maior problema é a falta de uma infraestrutura adequada. A malha de ciclovias em nossas cidades é, no geral, pífia. Nossas calçadas são ruins até para pedestres, imagine para patinetes. Então, é inevitável considerar patinetes circulando nas vias, compartilhando espaço com carros, motos, ônibus, etc. é um desafio e tanto. Não estamos preparados para tal situação. Nunca usamos patinetes deste jeito. Precisamos aprender.

PVST: Qual a sua opinião sobre a regulamentação e obrigatoriedade de equipamentos de segurança para os usuários das patinetes?

Celso Mariano: Penso que estamos no risco de cometer exageros. De um piloto de moto podemos cobrar o uso do capacete ou de roupas adequadas, porque existe toda uma normatização que já impõe exigências e fiscalização sobre o condutor e sobre o veículo. Mas como fazer qualquer destas coisas com quem anda de patinete ou da bicicleta? Nem veículos, nem, condutores, neste caso, possuem, ou lhes é exigido cursos ou documentação, Renavam, chassi ou placa. Ou seja, é preciso decidir: ou ficam como veículos liberados destas exigências todas, ou teriam que se encaixar no modelo atual aplicado para motos, carros, etc. Lembremos que todo o nosso sistema de controle, fiscalização e punição de condutores e veículos está baseado em CNH, Renavam, chassi e placa. Então, só resta orientar e estimular os condutores de patinetes para que se protejam. Não tem como obrigar, pois não será possível punir quem descumprir tal regra. Nestas horas vemos a imensa falta que faz um processo educativo para o trânsito consistente, robusto, duradouro e eficaz.

PVST: A popularidade dos patinetes, seus benefícios e riscos é também uma questão mundial. Como as grandes metrópoles como Nova York, Londres e Paris estão tratando o tema?

Celso Mariano: Penso que ninguém está sabendo como, exatamente, se deve tratar a questão. O que temos visto são um vai e vem de permissões e de proibições e, tal qual acontece por aqui, muita polêmica. ­­No geral, os países que têm o trânsito mais civilizado, têm menos problemas. Lá fora, as dúvidas e inseguranças são as mesmas. Mas o comportamento dos usuários tende a ser mais respeitoso com a vida quando o assunto é trânsito. Isso significa, que há mais percepção de riscos e mais cidadania. Justamente o que falta por aqui.

PVST: A polêmica sobre o tema tem tendência em reforçar os riscos. Existem estudos sobre os ganhos desta modalidade de transporte urbano com relação à redução de automóveis nas ruas, emissões e congestionamentos?

Celso Mariano: Os poucos estudos a que tive acesso demonstram que sim, há vantagens. O motor elétrico garante que não haverá emissão de CO2 (pelo menos aqui no Brasil, onde o impacto ambiental para produzir energia elétrica fica por conta das áreas alagadas pelas barragens das hidrelétricas). Quanto aos congestionamentos, o patinete, como veículo, tem uma ótima relação do espaço que ocupa na via em relação ao seu usuário, melhor até do que a bicicleta e a moto. Assim, quanto mais patinetes, menos veículos devoradores de espaço. E isso é ótimo para diminuir os congestionamentos. Mas a mais expressiva competência do patinete, como modal, são os deslocamentos em trechos curtos. E isso não libera, necessariamente, o uso dos outros veículos em um mesmo deslocamento. Só o tempo vai dizer o quanto o patinete e a bicicleta vão mesmo reduzir o uso dos automóveis. 

PVST:  Celso, você já teve alguma experiência com patinete?

Celso Mariano:  Já experimentei. Achei muito desconfortável. Tive a mesma sensação quando experimentei uma bicicleta de aluguel. Pneus com calibragem adequada fazem falta, especialmente em piso irregular. Compreendo que os fabricantes têm de optar por um modelo único, focado na média dos gostos e necessidades dos usuários. Não compraria um patinete para usar no dia a dia. Uma bicicleta, sim. Quanto à segurança, a sensação de exposição ao risco nas vias me foi assustadora. Nas ciclovias e calçadas é bem mais tranquilo, neste sentido.

 

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